Felicidade

SERÁ QUE O BRASIL ESTÁ DEIXANDO DE SER UM PAÍS DE GENTE FELIZ?

30 de outubro de 2013

Em outubro, eu participei de uma conferência em Bangkok, na Tailândia, com mais de 200 pessoas do mundo todo. Como sabia que teria muita gente interessada em saber mais detalhes sobre o Brasil, fiz uma apresentação contando para eles como anda nosso país cultural e economicamente.

Enquanto pesquisava notei que uma coisa é certa: o padrão de vida do brasileiro melhorou muito nos últimos anos. Isso se considerarmos os índices de longevidade, educação e renda.

É claro que muito desses números são puxados para cima por causa das grandes cidades e estas, também estão cada vez mais caminhando para o colapso por causa da quantidade de gente e, consequentemente, da falta de estrutura e do trânsito.

“O recente aumento da renda e ascensão da classe média podem indicar melhora na economia, mas não mostram se o bem estar da população evoluiu na mesma medida.” disse o Professor Fábio Gallo quando entrevistado sobre uma nova metodologia que vai calcular o Índice de Bem Estar Brasil que a FGV está trabalhando junto com outros institutos.

Também é notório que, junto com o desenvolvimento da economina, outros problemas começam a aparecer como o individualismo excessivo, os distúrbios de ansiedade e a depressão.

Quando decidi que me mudaria do Brasil para começar esse estudo sobre a felicidade, uma das coisas que eu pesquisei foram os índices de felicidade dos países em que eu tinha algum interesse em passar um tempo. Isso, entre outras coisas, me ajudou a decidir começar pela Ásia. Também me chamou bastante a atenção o fato de o Vietnã, onde decidi morar por 3 meses, ser o segundo colocado nesse ranking.

Conversando com algumas pessoas na época em que tomei a decisão, foi engraçado perceber que muitas delas automaticamente associavam essa “liderança no ranking” ao fato deles provavelmente serem menos materialistas, comunistas, religiosos ou então, vinham com o famoso discurso de que nesses países não tem tanta desigualdade social por causa do baixo apelo ao consumo.

O que eu tenho percebido desde que cheguei aqui é que sim, eles aparentemente são mais felizes. Mas apenas porque eles são menos ansiosos e menos estressados. Eles não estão preocupados com a marca da sua bolsa ou com o carro que você tem. Estão acostumados com um enxame de gente e, mesmo não tendo sinalização e quatro milhões de motos circulando pela cidade, o trânsito anda porque eles se respeitam.

Os vietnamitas são muito orientados para a comunidade e para a família, coisa que o brasileiro costumava ser, mas com o crescimento das cidades isso tem se perdido cada vez mais, principalmente em São Paulo. Além disso, por aqui eles aparentemente aceitam que alguém precisa ser lixeiro, pedreiro ou motorista de ônibus e cada um se contenta com a função que tem e entende que ela tem sua importância para o funcionamento da sociedade.

De uns anos para cá, isso não parece ser o que acontece em alguns lugares do Brasil. Se contentar com a profissão que você tem e com o que você consegue conquistar por meio dela não é mais o suficiente. Na verdade, hoje em dia parece que se contentar com a própria vida é o mesmo que desistir ou fracassar.

Se você nasce pobre e não se torna um adulto bem sucedido ou se não tem uma vida melhor do que a que tinha quando era criança a culpa é sua. Você não deve ter se matado de trabalhar o suficiente, deve ter escolhido o trabalho errado ou não ter estudado o quanto devia. Resumindo, você falhou. Afinal, a fórmula do sucesso é simples, não é? Basta entrar numa boa faculdade, arrumar um bom emprego, se matar de trabalhar para ser promovido e ganhar mais dinheiro. Assim, você vai arrumar uma namorada mais bonita, ter hobbies mais legais,  amigos mais descolados e vai ser feliz. Só que na prática, não é assim que a vida funciona e isso é o que acaba enchendo as pessoas de estresse, ansiedade, sensação de inadequação e até depressão.

Para ajudar, nós estamos vivendo em uma era na qual temos acesso ao maior número de informação do que sempre tivemos em toda a história. Qualquer tipo de informação que quisermos estará na tela do nosso computador ou celular em segundos e não dá para negar que isso é sensacional! Mas, quando combinamos a falta de escolaridade e a cultura do consumo excessivo com essa quantidade infinita de informação, temos como efeito colateral uma população exposta a uma infinidade de coisas que vão fazê-la lembrar o tempo todo que ela não é competente o bastante para ter.

Além disso, vai dizer que você não sente uma coceirinha para trocar de carro quando seu melhor amigo compra um carro novo? Ou quando aquela pessoa que trabalha com você diz que vai viajar para a Indonesia, você não começa a pensar que está na hora de a escolher lugares mais exóticos para ir quando tirar férias? Ou quando você vê que sua amiga ficou linda com aquele vestido novo, não quer imediatamente comprar um igual?

A verdade é que nenhum de nós tem a coragem de assumir publicamente que sente esse tipo de “inveja” conscientemente. Ma,s infelizmente, isso acontece o tempo todo. O ser humano precisa de referência para mensurar o próprio sucesso ou fracasso e no Brasil, isso parece ser ainda mais forte, pois existe uma busca incansável por ídolos e modelos a serem seguidos. É só olhar para o sucesso das blogueiras de moda e fitness.

Eu só temo que em alguns anos teremos no Brasil uma classe média que, por ter acesso à informação, às maravilhas do consumo e considerar status sinônimo de sucesso, vai acabar endividada, inadimplente e por isso, estressada e infeliz. E, aquele Brasil conhecido por todos os gringos como um lugar de gente leve e desencanada, talvez perca o que sempre teve de mais especial, seu sorriso.

Algumas imagens vêm de fontes diversas e por isso, nem sempre autorizadas. Se alguma imagem de sua autoria estiver no blog e você desejar ter o crédito ou a remoção, favor enviar um email para fernanda@felizcomavida.com e faremos os ajustes necessários.

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9 Comments

  • Reply Daniele Leão 30 de outubro de 2013 at 18:28

    Fê, estou gostando MUITO do seu blog! Vc escreve muito bem! Parabéns! Bjs

  • Reply Maria Antonieta 30 de outubro de 2013 at 18:30

    Análise perfeita Fê, adorei esse texto!

  • Reply Pablo 31 de outubro de 2013 at 00:27

    Boa Noite Fê, eu não lhe conheço pessoalmente, mas curti demais seus textos, curti demais seu estilo de vida e já lhe imaginei uma pessoa maravilhosa, muito de bem com a vida. Parabéns pelo amor que você tem pra criar esses textos.

    Beijos

    • Reply Fê Neute 31 de outubro de 2013 at 04:42

      Oi Pablo!
      Fico feliz com comentários como o seu, porque eu realmente amo escrever e tudo o que eu quero é que as pessoas sintam isso quando leem meus textos.
      Obrigada pela mensagem 🙂

  • Reply Bruna 31 de outubro de 2013 at 13:01

    Adorei a sua reflexão, Fê!

    Primeiramente, o ser humano não se respeita e sem respeito das coisas não funcionam. Pra mim ele é uma das coisas mais importantes para vivermos em sociedade. Quem respeita o outro não rouba, não mata. Saber respeitar as diferenças e o tempo de cada pessoa é essencial para a boa convivência.

    Segundo, as pessoas querem MOSTRAR pras outras que são bem sucedidas, que conseguiram o que queriam. As vezes o que elas conseguiram nem sempre foi o sonho da vida delas, mas, por se compararem com os outros, por acharem que a felicidade do outro tambem é a dela, acabam tendo tudo e no entanto não tem nada.

    Pra mim, o ser bem sucedido, ou ser feliz, é uma coisa muito pessoal. Ser feliz é me aceitar como eu sou, é parar de me comparar com os outros. Quando eu me compreendo, consigo ver o que me motiva e o que, me fará feliz. Ser bem sucedido é fazer o que a gente gosta, com amor. Se sentir realizado ao ver seu trabalho… isso que conta. Quanto nos encontramos no meio desse caos que virou o mundo, a gente de fato, se torna feliz!

  • Reply Daniela Seco 8 de dezembro de 2013 at 15:02

    Oii Fê, muito bom o seu blog!
    Já li quase todos os textos…rsrs…o mais legal é que vc deixa claro que não é largar tudo e buscar outra vida que vai te fazer feliz, a coisa não é tão simples assim, a felicidade depende só de nós e o consumismo desenfreado é o pior inimigo dela, apesar de parecer ser o melhor amigo no primeiro insteante!
    Parabéns e boa viagem de autodescobeta…;O)
    Um beijo!!

  • Reply nancy 6 de agosto de 2014 at 15:52

    OI, Fê. Gostei tanto dos teus textos que voltei. lendo esse de agora eu te proponho pensar que alguém inventou, no passado, essa estória de que Deus quer que sejamos diferentes. É fácil fazer as pessoas acreditarem. O problema é que com tanta informação deixa-se de acreditar, passa-se a questionar porque tantas regalias para uns e tantas obrigações para outros. E nem precisa pensar só em humanos, os animais também ficam excluídos de todo o conforto produzido. Talvez sorrir seja uma expressão do ato de concordar, talvez haja bem menos brasileiros concordando. Em muitos momentos e lugares o convívio lembra aquela idéia de que devemos viver conforme nossa casta. Talvez estejamos parando para pensar, pelo menos, sobre “quem foi q disse q eu nasci na tal casta ?”

  • Reply Nina Ferreira 16 de Março de 2015 at 00:47

    Fê, seus textos são maravilhosos e sempre que venho aqui, tenho uma reflexão boa. Obrigada!

  • Reply Gi Lima Frazão 8 de Fevereiro de 2016 at 14:41

    Fê tu é uma inspiração. Tua sabedoria é imensa.
    Outro dia observando algumas blogueiras em um grupo no facebook eu percebi isso. Que se o seu caminho não é igual ao do outro e você ainda não alcançou as mesmas coisas que o outro significa que você fracassou.
    Sua vida como é não é mais suficiente, você tem que ser como fulano que é bem sucedido. Pior ainda é ver que crianças e adolescentes já são preocupados com isso desde cedo.
    Falta aceitação, reflexão, direcionamento para que possamos ser felizes com o que somos.
    Beijos e continue nos ensinando, inspirando e compartilhando tantas coisas boas.

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