Vida Nômade

O QUE VOCÊ PRECISA SABER ANTES DE SE TORNAR UM NÔMADE DIGITAL?

30 de outubro de 2014

Embora eu tenha saído do Brasil com a intenção de me tornar uma nômade digital, eu só passei a me considerar uma 6 meses depois, quando arrumei meu primeiro trabalho. Antes disso, eu estava apenas viajando e tentando entender o que eu estava fazendo com a minha vida. Mais ou menos como nessa foto, vagando pelo deserto sem saber muito bem o que ia encontrar.

Desde que eu escrevi pela primeira vez sobre isso, comecei a receber convites para entrevistas, emails e mensagens de pessoas fascinadas pelo estilo de vida. Gente que quer saber como virar um nômade digital, que ama viajar e tem certeza de que esse é seu propósito de vida.

Gravei um vídeo tentando explicar um pouco mais sobre isso um tempo atrás, mas agora, mais de um ano após ter pedido demissão, sinto que posso falar sobre o assunto com mais propriedade.

A primeira coisa que eu queria deixar bem claro é que, de um tempo para cá, criou-se um falso rótulo do que é ser nômade digital no Brasil.

É importante entender que “NÔMADE” é uma pessoa que não tem casa. Se você quer viajar pelo mundo, mas quer deixar todas as suas coisas guardadinhas na casa da sua mãe ou mantendo um apartamento fechado em algum lugar, você teóricamente não é nômade.

Não há nada de errado nisso. A questão é que muita gente que viaja por curtos períodos de tempo e volta para o conforto do seu lar começou a se intitular nômade e não é bem assim.

“DIGITAL” seria quem trabalha online e, por isso, não precisaria estar em nenhum lugar para fazer o seu negócio andar. Ou seja, NÔMADE DIGITAL é aquela pessoa que não tem casa, não tem pertences em nenhum lugar (a não ser aquilo que carrega na mala) e pode trabalhar de onde quer que esteja.

Você pode estar se questionando porque eu estou sendo tão enfática em relação a uma simples nomenclatura, certo?

Porque o termo que parece novo no Brasil, já está ficando ultrapassado entre aqueles que começaram a fazer isso 8, 10 anos atrás.

O livro Four Hour Work Week, de Tim Ferriss, grande impulsionador de muitos desses pioneiros, apresenta conceitos que não se aplicam mais à realidade atual.

Além disso, a proposta do livro foi completamente distorcida. Ele fala sobre automatização do trabalho, produtividade e bom uso do tempo e não sobre como ser um nômade digital. Viver esse estilo de vida é apenas uma das consequências de ter o seu tempo melhor administrado e, com isso, acabar tendo mais LIBERDADE para usá-lo como quiser. Ainda assim, os conselhos mais práticos do autor pouco se aplicam à realidade brasileira, na minha opinião.

Aqueles que têm um trabalho que os possibilita ter flexibilidade para viajar quando quiserem, permanecerem longos períodos viajando ou mesmo trabalhando de casa, são empreendedores ou profissionais que trabalham independente da localização, ou seja, location independent entrepreuneurs, um termo muito mais comum hoje em dia.

No Brasil, ainda existe uma glamourização em cima do assunto, mas a grande verdade é que não é porque você largou tudo e foi dar a volta ao mundo ou porque você tem a flexibilidade suficiente para viajar 5 vezes por ano trabalhando que você seja um nômade digital.

Independentemente do nome, eu tenho quase certeza de que você ainda acha que isso é o que você quer fazer da vida, acertei? Eu já sabia! Então, aí vão algumas dicas de quem está vivendo há mais de um ano sem ter casa e com apenas uma mala:

1. Não é o sobre o que você quer, é o que os outros precisam.

Quase todo mundo que entra em contato comigo tem os mesmos anseios: EU amo viajar. EU quero aproveitar a minha vida. EU não aguento mais o meu trabalho. O que eu posso fazer? Como arrumar trabalho? Como começar?

Eu vou te responder com uma pergunta: o que OS OUTROS precisam que só você pode fazer? 

Muita gente acha que ter um blog de viagens é o seu objetivo de vida e sua carreira dos sonhos. Tudo bem, não estou dizendo que você não deve criar um ou seguir o seu sonho, mas todos os dias aparecem centenas de novos casais, meninas e mocinhos que decidiram largar tudo, viajar e criar um blog sobre a experiência.

Se você der um Google sobre “largar tudo e viajar o mundo” vão aparecer 477.000 resultados. Ou seja, existem quatrocentos-e-setenta-e-sete-mil-sites que de alguma forma estão falando sobre esse assunto.

Eu sei que você tem certeza de que suas dicas de viagens e sua experiência seriam únicas e diferentes de todos os outros sites. Mas meu ponto aqui é fazer você parar para pensar que antes de criar algo sobre o que você gosta pensando nisso como uma forma de ganhar dinheiro para realizar o SEU sonho, talvez seja interessante pensar em algo que OS OUTROS precisam e que problemas você pode ajudar a solucionar. Que tal pensar em formas de como fazer o seu blog ou negócio mudar a vida das pessoas?

Em geral, o brasileiro além de não ter uma atitude empreendedora, tem mania de querer copiar aquilo que deu certo para os outros. Isso não é só uma crítica aleatória, quer um exemplo?

Eu não sei em outros lugares, mas em São Paulo houve um boom de frozen yogurt. As primeiras lojas tinham filas quilométricas. As pessoas rapidamente entenderam que aquilo era um bom negócio e as franquias começaram a pipocar em todo shopping e esquina possível. Algum tempo depois, não se ouve mais falar em Yogoberry e só se ouve falar em food trucks. É isso que acontece quando você começa um negócio pensando em você e não nos outros.

2. Viajar o tempo todo pode retardar a sua tão sonhada liberdade.

Aqui eu te faço uma nova pergunta: seu objetivo de vida é realmente ter um negócio que te proporcione conquistar a tão sonhada liberdade OU é trabalhar menos para poder aproveitar mais a vida? Se for o primeiro, viajar pode ser o primeiro passo para acabar com ele.

A não ser que você seja extremamente disciplinado e focado, já tenha uma ideia de negócio estruturada ou clientes fechados, viajar de um lugar para o outro faz você perder tempo, noites de sono, se alimentar mal, além de ser distrativo. Quando você não tem experiência em trabalhar por conta, em gerenciar o seu próprio tempo, ou nunca teve um negócio na vida, eu diria que começar a fazer isso viajando pode ser uma grande roubada.

O que pode ser feito sim, é usar o conceito desse estilo de vida para economizar dinheiro e viver em um lugar muito mais barato do que o que você costuma viver. Mesmo assim, para nós brasileiros que não temos dupla cidadania ou contas bancárias em outros países, em tempos de dólar a quase R$ 2,60 + IOF de 6,38% sobre toda e qualquer transação no exterior, nenhum lugar está saindo mais tão barato assim.

Um ponto de atenção é que também está ficando cada vez mais difícil permanecer mais tempo nos lugares. A cada vez que você volta para aquele país, o número de perguntas aumentam no momento da imigração. Na Tailândia mesmo, o governo começou a fazer blitz em espaços para co-working, e passou a deportar gente que estava com visto vencido ou fez a galera regularizar sua estadia para pagar impostos e taxas.

Se você está interessado em ter um negócio realmente sustentável no longo prazo ou uma carreira, você vai precisar de foco, dedicação, muitas, muitas horas de trabalho e viajar o tempo todo não te permite fazer isso.

Agora, se você só quer arrumar uns bicos que te ajudem a pagar por essa aventura, vai fundo, mas saiba que isso é temporário e ainda assim vai exigir alguma disciplina e comprometimento da sua parte. Não pense que você vai sair por aí mochilando com um laptop, trabalhando 4 horas por semana e vai começar a ganhar dinheiro.

3. Não se iluda.

FELIZ COM A VIDA_piscinaEsta não é a rotina de quem vive dessa forma, muito pelo contrário. Para cada foto na praia, com uma água de coco ou um pôr-do-sol, existem incontáveis noites sem dormir, dias e mais dias inteiros enfiados dentro de um apartamento e mil inseguranças: e se nada der certo? E se meu dinheiro acabar? E se o dólar explodir para R$ 3? E se eu perder minha mala? E se eu ficar doente? E se eu tiver que voltar a procurar emprego?

Já disse muitas vezes, mas vou repetir: viajar trabalhando não é férias. É incrível, maravilhoso, mas você tem de estar ciente de que seus problemas poderão até ser diferentes, mas eles continuarão existindo.

Eu não quero que você pense que eu quero te desencorajar ou te fazer desistir dos seus sonhos. Só acho importante compartilhar também o lado B de uma experiência como esta. É uma forma de dividir com vocês parte das inseguranças e questionamentos que eu vivo diariamente, mas muitas vezes, vocês podem pensar que eles não existem, já que não é isso que eu posto no Instagram!

Meu objetivo aqui é sempre te inspirar a ter uma vida mais feliz, mas reconhecendo que para isso não podemos ignorar o lado negativo das coisas ou fingir um falso positivismo, mas isso já é assunto para um outro post 🙂

Imagens: arquivo pessoal.

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15 Comments

  • Reply Eliel Martins 30 de outubro de 2014 at 08:36

    Muito bom seu post, parabéns. Eu tenho um foco de conhecer o mundo, sair e ter novas experiências de culturas. Mas esses questionamentos que você cita acima, sempre são persistentes em minha mente, a incerteza é muito grande, do mesmo tamanho do desafio, só que não é maior que o sonho de desbravar novos horizontes. Abraço, é boa sorte em sua caminhada !

  • Reply Taís 30 de outubro de 2014 at 12:08

    Muito bom o texto, estava pensando exatamente sobre isso esses dias, a diferença entre trabalhar de casa (ou de outro lugar) e não ter casa (ser nômade de fato). E pensando também que o que quero fazer (estou buscando) deve ser algo que traga um bem pro mundo, e não seja uma egotrip igual a tantas… O texto só veio esclarecer essas coisas… Obrigada

  • Reply Gabriela 4 de novembro de 2014 at 09:51

    Muito bom. Mesmo! Primeiro site que me deparo que mostra o lado hard core de ser um nômade digital. Até agora tinha sido apenas flores. Já favoritei aqui seu blog Fê 🙂

  • Reply Luciana 4 de novembro de 2014 at 17:32

    Oi, Fê. Uma vez te mandei um e-mail perguntando sobre Medellín e você ficou de me indicar uma escola de idiomas lá. Sei que você é bastante ocupada, mas gostaria que, se pudesse, você me indicasse 🙂 Obrigada. Beijos.

  • Reply Juliana Cabral 7 de novembro de 2014 at 23:16

    Mesmo tendo a certeza que tudo vai dar certo, é muito legal ver que nem tudo são flores e que deve ser pensado!

  • Reply Joana Luiz 9 de novembro de 2014 at 17:38

    A clareza e honestidade das suas palavras são inspiradoras, ao mesmo tempo que efetivas na mensagem.
    Joana

  • Reply Michelle 11 de novembro de 2014 at 09:33

    Muito bom o texto! Difícil ver matérias realistas por ai =)

  • Reply Di 23 de dezembro de 2014 at 07:39

    É o que eu sempre digo: “Nem tudo são flores”. Fiz um sabático em 2011 e quando as pessoas me procuram pra me elogiar e dizer que sou muito corajosa e que elas queriam ter a mesma coragem eu sempre procuro ser realista. Essa vida não é pra todo mundo. Uma vez, contando algumas partes da realidade pra duas conhecidas, vi a cara de decepção delas. Todo mundo espera que você diga que é tudo maravilhoso, que tudo é fácil e que todo mundo deveria fazer o mesmo. Sim, acho realmente que todo mundo deve “testar” conhecer outros lugares e viajar, mas existe um mundo entre gostar de viajar e viver disso.
    Parabéns pelo blog, FÊ! Sucesso!

  • Reply Susana Gaspar 31 de Janeiro de 2015 at 06:53

    Parabéns pelo Blog, Fê!
    Concordo consigo a 100% quando diz que as pessoas se iludem no que diz respeito ao trabalho de um empreendedor digital. Há imensa gente a achar que passa o dia inteiro à beira da piscina e é por isso que também desconfiam mais dos profissionais da área.
    Efetivamente poucos são os que têm noção que é preciso muito trabalho, muito foco, muita persistência para conseguir ter resultados (não só nesta área mas em qualquer outra se quisermos ser bem sucedidos)
    Votos de muitos sucessos e mais uma vez parabéns pelo blog e obrigada pela inspiração

  • Reply Michael 3 de Abril de 2015 at 09:54

    Texto muito bom. Encara com clareza e realidade o tão sonhado mundo dos nômades digitais. Depois de Tim Ferriss muita gente decidiu se arriscar nessa forma de viver, porém pouquíssimos conseguem enxergar os dois lados da moeda. Abraços, Fê.

  • Reply Camila 17 de novembro de 2015 at 13:56

    Fe, assim como muitos de seus leitores, também estou em processo de mudança de vida. Não necessariamente vou me tornar uma nômade digital agora, mas estou largando meu emprego atual, em busca daquilo de que eu gosto.
    A quantidade de blogs que encontro por aí falando disso e de nomadismo digital são grandes, mas o seu foi um dos poucos que tratou o assunto de uma maneira mais realista, explorando aquilo que tem de bom e ruim nesse estilo de vida.
    Deste modo, parabéns e obrigada pelo seu ponto de vista sincero.
    E sucesso pra você!

  • Reply Jéssica Campos 14 de Janeiro de 2016 at 10:53

    Bom dia Fê!
    Lendo seu post em 2016, conheci agora seu blog.
    Me pergunto agora o quão dificil é viajar com o dólar R$4,02…
    Tinhamos sorte e a gente não sabia!!!
    Enfim, adorei seu trabalho, sonho em um dia fazer isso também, o único problema são as coisas aumentando disparadamente! 🙁
    Beijos

  • Reply ana paula 7 de Abril de 2016 at 09:13

    Parabens Fê, t conheci agora vou olhar seu blog e ver posts mais atuais espero q esteja tudo bem contigo sucesso.

  • Reply Anderson Hander 16 de julho de 2016 at 11:00

    Parabéns pelo site. Gostaria de compartilhar com vocês a minha experiência como nômade. Vivo assim há 7 meses. Posso dizer que a minha vida mudou completamente por causa da internet, hoje eu vivo na Croácia, em Zagreb. Estou fazendo uma série de vídeos compartilhando as minhas experiências sobre o nomadismo digital:

    https://www.youtube.com/watch?v=RAVG7p24IS4

    Sucesso a todos.

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