O FIM DA ERA NÔMADE DIGITAL

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Eu lembro como se fosse hoje a primeira vez que ouvi o termo nômade digital. Há quase 4 anos, eu estava na minha balada favorita em São Paulo, quando um gringo começou a conversar comigo.

Para ter assunto, perguntei o que ele fazia. Meio tímido, ele me respondeu que era complicado de explicar. Coitado, essa era a pior resposta que ele poderia dar para uma pessoa curiosa como eu.

Conversa vai, conversa vem, até que ele me disse que já tinha visitado mais de 40 países nos últimos 3 anos, enquanto trabalhava no seu negócio digital.

Juro, acho que eu fiquei mais surpresa do que se ele tivesse me dito que era astronauta.

Eu queria saber tudo!

Como assim você pode viajar enquanto trabalha? Que tipo de negócio é esse? Como você se sustenta? Que países você já visitou? Como é lidar com os vistos? Baseado em que você decide para onde vai?

Curiosamente, essas são algumas das perguntas que muita gente me faz diariamente hoje em dia.

O estilo de vida nômade digital desperta algo inexplicável nas pessoas. Alguns não entendem, por mais que eu explique. Outros ficam fascinados e decidem que essa é a vida que eles querem também. Eu entendo, esse foi o meu caso.

Depois daquele dia, eu não parei mais de pensar nisso. Eu precisava encontrar uma forma de fazer a mesma coisa. Foi quando eu decidi que, para tornar esse sonho possível, eu mudaria meus hábitos pouco a pouco, eliminaria todos os excessos e economizaria o máximo de dinheiro que eu conseguisse em um ano.

Exatamente 18 meses após aquele encontro na balada, eu estava embarcando para a Tailândia com o mesmo gringo e uma mala cheia de sonhos e esperanças.

Foi assim que nasceu o projeto Fê-liz com a vida! e também uma nova oportunidade de usar o conhecimento que acumulei durante os quase 14 anos no mercado publicitário para trabalhar por conta própria. Eu virei freelancer, nômade digital e comecei dividir os aprendizados dessa nova vida com vocês.

Quem me acompanha sabe que eu sempre fui muito honesta e verdadeira ao falar sobre esse estilo de vida e hoje não vai ser diferente, até porque, estou escrevendo para encerrar oficialmente esse ciclo da minha vida.

É isso mesmo, eu vou deixar de viver como nômade.

Por que?

Simplesmente porque, na minha opinião, essa vida tem um prazo de validade e o meu expirou. Não só o meu, mas o de 95% dos amigos nômades que eu fiz na estrada.

Todas as pessoas que eu conheci e que estavam vivendo dessa forma por mais de 2 anos estão se estabelecendo no seu país de origem ou no país em que mais gostaram de viver, na maioria das vezes porque se apaixonaram ou até casaram.

Eu sei que muita gente deve estar me achando louca ou até mesmo chata por querer abandonar a vida dos sonhos de qualquer pessoa, mas para vocês entenderem melhor eu vou listar os principais motivos que me fizeram tomar essa decisão:

1. Viver como nômade não significa estar eternamente de férias.

Embora seja muito sedutora, a vida nômade não é tão diferente da vida que vivemos nas nossas cidades. Quando temos um trabalho, seja como freelancer ou o nosso próprio negócio, não tem como escapar de alguns compromissos, entregas e tarefas que precisam ser feitas em um determinado prazo.

Aí você pode dizer: “ah, mas é muito melhor trabalhar de casa e poder ter os seus horários flexíveis para fazer o que quiser e usar seu tempo para conhecer novos lugares”. Sim, é verdade! Mas, isso é ainda mais verdade na teoria do que na prática.

Trabalhar por conta própria não é simples, principalmente nos primeiros anos. Além disso, depender 100% de internet para trabalhar e não ter uma renda fixa pode ser extremamente estressante, principalmente quando não se tem mais 20 e poucos anos.

Quando pensamos em como deve ser o máximo viver viajando, estamos na verdade, pensando naqueles dias maravilhosos das nossas férias, quando somos livres e felizes. Só que, viajar enquanto trabalha é o mesmo que tirar férias e ficar no celular respondendo emails do trabalho, ou seja, uma merda. Você até aproveita, mas não da mesma forma que aproveitaria se estivesse totalmente relaxado.

2. Faz falta ter uma casa.

Mesmo carregando pouca coisa e conseguindo me mudar de um lugar para o outro com facilidade, a chegada em uma cidade nova era sempre tensa. Eu ficava ansiosa até ter certeza de que a casa era aquilo mesmo que estava no site (o que na maior parte das vezes não era), depois levava uns dias para me adaptar com a cama, com o travesseiro, com o chuveiro, enfim, com a casa nova.

No começo eu nem ligava. Também adorava explorar os bairros para descobrir onde era o supermercado, a farmácia, os restaurantes.

Só que depois de alguns meses, viajar para lugares novos virou parte da minha rotina e isso passou a ser exaustivo. Fora todas as vezes em que eu gostaria de ter ficado mais tempo, mas precisei ir embora por causa do visto.

Depois de um ano na estrada, eu tinha arrepios e ficava mal só de pensar em fazer minha mala e começar tudo de novo. Eu queria voltar a sentir aquele alívio gostoso que sentimos quando voltamos para casa depois de um longo período viajando, mesmo que o coração esteja apertado pelo fim das férias, sabe?

3. Tendemos a achar que tudo aquilo que não temos nos faria mais felizes do que a nossa realidade atual. 

Nós só sabemos identificar a felicidade porque ficamos tristes em algum momento. Se todos os nossos dias fossem plenos, nós não daríamos tanto valor para a felicidade, ou pior, talvez nem soubéssemos reconhecê-la.

O mesmo acontece com as viagens que fazemos de férias. Elas são maravilhosas e deixam tantas memórias incríveis porque planejamos e esperamos por meses. Geralmente estamos cansados de um longo período de trabalho e no momento em que entramos no avião estamos em êxtase!

Quando viajar passou a fazer parte da minha vida normal, eu parei de sentir o frio na barriga que eu sentia antes. 

Mesmo cada lugar sendo único, depois de ter visitado mais de 30 países e 80 cidades ao redor do mundo, a minha expectativa e animação em relação aos novos lugares começou a ser muito mais baixa. Estava ficando cada vez mais difícil eu me surpreender e comecei a me sentir mal por isso.

Eu queria voltar a ter a empolgação de antes quando pensava em viajar e não ficar ansiosa porque estava me mudando mais uma vez.

Da mesma forma que eu sonhava em viver como nômade quando eu morava em São Paulo e trabalhava como uma louca em uma agência de propaganda, eu passei a sonhar em ter um lar quando estava vivendo a vida que eu sempre quis.

4. É difícil se manter saudável viajando constantemente.

Depois de alguns meses viajando, eu percebi que era muito difícil não abrir excessões, fosse em relação a comida ou à prática de exercícios. Além disso, eu estava perdendo muitas noites de sono por causa de fuso horário, de camas ruins e da instabilidade financeira.

Com o tempo, isso começou a prejudicar drasticamente o meu bem-estar. Eu vivia cansada, sem disposição e sem energia para nada. Tinham dias em que eu estava na praia mais maravilhosa e tudo o que eu queria era dormir de tão exausta.

5. No fim das contas, a vida é feita de relacionamentos.

Conhecer novos lugares, culturas, comidas e jeitos diferentes de se viver é uma das coisas mais incríveis da vida. Eu queria que todo mundo pudesse viajar para o maior número de lugares possível e sempre vou encorajar as pessoas a priorizarem viagens à um carro novo, roupas e até à compra de uma casa, pois viajar enriquece muito mais do que qualquer bem material.

Mas, mais importante do que tudo isso são os relacionamentos que cultivamos ao longo da vida. De todos os lugares onde passei, os que eu mais tenho vontade de voltar são aqueles onde eu deixei amigos.

Amizades não acontecem da noite para o dia. É preciso tempo, dedicação e convivência para estreitar laços e a vida nômade não permite isso. Quando você finalmente encontra a sua turma e começa a se apegar, é hora de partir.

Mesmo conhecendo muita gente incrível e interessante o tempo todo, chega uma hora que cansa ter que explicar pela 146ª vez de onde você é e o que você faz, principalmente quando nem você sabe exatamente o que está fazendo.

Depois de algumas chegadas e partidas, se eu fosse ficar na cidade por menos de 3 meses, eu nem fazia mais questão de ir atrás de novas pessoas para conhecer, já que novas amizades exigem investimento emocional e eu estava cansada de me esforçar por algo que muitas vezes seria superficial.

Eu não estou aqui para tentar convencer ninguém a virar ou, principalmente, desistir de ser um nômade digital. Sou muito feliz por um dia ter tido a coragem de pedir demissão de um emprego estável e muito bem remunerado para seguir o meu sonho e de ter vivido esse estilo de vida por 2 anos.

Descobri que gosto de rotina, de estabilidade e de viajar com a leveza que só quem viaja de férias tem. Também descobri que gosto de ter a liberdade de escolher o que for melhor para a minha vida e, nesse momento, é ter uma casa.

Hoje eu sou uma pessoa completamente diferente da que eu era quando comecei essa grande aventura, uma versão muito melhor de mim mesma.

Estou extremamente feliz com a minha decisão, pois hoje, tenho certeza absoluta daquilo que me faz verdadeiramente feliz com a vida!

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