O PRIMEIRO CABELO BRANCO

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Estou arrumando os cabelos quando, sob o efeito da luz do sol, eu posso vê-lo se destacando quase como um holofote em meio às minhas madeixas castanhas escuras. Sim, o meu primeiro cabelo branco.

O primeiro impulso foi gritar como se eu tivesse visto uma barata, afinal, senti um gelo na espinha similar ao que o inseto me causa. O segundo, obviamente, foi arrancá-lo, como se isso fosse fazer o inevitável parar de acontecer. Mas pelo menos, consigo me enganar por alguns, eu espero, meses.

Existem dezenas de outras coisas que me lembram todos os dias que o tempo está passando. Os aniversários, os bebês que eu vi nascer quando eu já estava na faculdade e hoje estão quase indo para a faculdade, a minha irmã mais nova, o meu Instagram cheio de fotos de casamento e crianças. Mas, por algum motivo, esse longo fio de cabelo branco fez com que, pela primeira vez em 32 anos, eu sentisse que estou… envelhecendo.

Eu sei que você deve estar achando um exagero, afinal, eu tenho 32 anos. Só que este cabelo, que hoje nem está mais na minha cabeça, foi um lembrete de que o tempo é implacável e não existe como passar por ele sem marcas.

Isso me fez pensar em uma das brilhantes passagens do filme EU MAIOR, em que o filósofo Mario Sergio Cortella fala um pouco sobre a importância de não se ter uma vida pequena:

Além das marcas que deixa quando passa, o tempo também leva com ele, todos os dias, um pedacinho dessa coisa maravilhosa que é a vida. Acho que por isso é tão difícil envelhecer.

O problema de ficar velho não são os cabelos brancos, as rugas, o peito caído ou as manchas nas mãos. Envelhecer é um sinal de que estamos cada vez mais perto da morte.

“Não tenho medo de morrer, tenho pena.”
– Chico Anysio

Tem gente que lida bem com isso. Percebi que não vai ser fácil para mim. Mas, quero trabalhar cada vez mais para que cada dia vivido seja um dia somado e não subtraído da minha vida.

Não quero olhar para o espelho, no dia em que o reflexo vai pouco parecer com a pessoa que eu sou hoje por fora, e pensar que eu poderia ter trabalhado menos, amado mais ou ter sido mais feliz. Quero ter a certeza de que todas aquelas rugas, manchas de sol e cabelos brancos (provavelmente tingidos, é claro) são marcas de uma vida muito bem vivida.

Mas hoje, só hoje, quero é fingir que esse cabelo branco nunca existiu, posso?

Imagem: Gianluca Fallone

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