“SIGA SUA PAIXÃO” PODE SER UM CONSELHO FURADO

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Todas as vezes que eu entrava em uma aula de estatística na faculdade eu pensava: “Por que uma pessoa que escolheu estudar publicidade precisa ter essa aula maldita?”. Eu tinha um professor japonês que falava para dentro, entrava na sala de aula como se fosse um robô programado para falar e escrever, mesmo que ninguém estivesse dando a mínima. Ao final da aula, passava um monte de exercícios que para mim eram códigos indecifráveis. No fim do ano,  quase 70% dos alunos ficaram de DP, e eu, que nunca tinha ficado em recuperação na vida, também.

Quando eu poderia imaginar que anos depois eu estaria vasculhando meus livros para poder entender melhor alguns relatórios no trabalho? O problema é que desde o ensino fundamental até a faculdade, quase ninguém te diz qual é a real utilidade do que você aprende. É claro que muitas coisas realmente acabam não sendo usadas na vida prática, mas existe uma razão para tudo o que está no programa.

Infelizmente o mesmo acontece em muitas empresas. Mais da metade das pessoas trabalham sem saber para que o trabalho delas serve e qual é a importância dele dentro de todo o processo. O resultado disso, são pessoas desmotivadas e frustradas com a vida profissional ou que só estão preocupadas com o próprio umbigo. Algumas empresas para tentar melhorar a situação, decidem motivar os funcionários com bônus, o que gera um ciclo tóxico que contamina não só a relação entre os funcionários, mas também todos os fornecedores envolvidos nessa cadeia. No fim, ninguém está preocupado em realizar um bom trabalho e sim com o bônus no fim do ano.

Siga a sua paixão

Desde que comecei estudar a felicidade, eu tenho lido todos os artigos que tenho encontrado online, além de assistido a vídeos, filmes e lido muitos livros sobre o assunto. O que tenho notado é que o formato de texto mais compartilhado e que faz mais sucesso nas redes sociais são as famosas listas: 7 hábitos, 9 escolhas, 10 coisas, 12 segredos e 728 pensamentos diferentes sobre o que faz as pessoas felizes. Eu não tenho nada contra as listas, muito pelo contrário, mas um item recorrente tem me incomodado um pouco, o siga a sua paixão.

O fato de me incomodar, não quer dizer que eu não acredite que isso seja importante para ser feliz. Estar satisfeito com o trabalho é, sem dúvida, uma das coisas que mais contribuem para a felicidade do ser humano. O meu ponto é que isso não significa que seguir a sua paixão seja o único caminho para se sentir realizado profissionalmente.

No livro So Good They Can’t Ignore You, o autor defende a teoria de que para uma pessoa se sentir motivada e realizada profissionalmente é necessário que ela supra três necessidades psicológicas básicas:

– Autonomia: é o sentimento de que você tem controle sobre o seu dia e de que o que você faz é importante.
– Competência: é o sentimento de que você é bom no que faz.
– Pertencimento: é o sentimento de conexão com outras pessoas.

Mas, quase sempre que entro em uma discussão sobre esse assunto, a sensação que eu tenho é que as pessoas que estão desesperadas para trabalhar por conta própria, começar um negócio ou aquele tão sonhado plano B, estão mais em busca de autonomia e liberdade do que de fazer algo o qual elas sejam muito boas ou que tenha um propósito que vá além delas mesmas.

Seguir sua paixão não é algo simples

Se você conhece um cara chamado Gary Vaynerchuk, vai discordar desse ponto. Considerado uma espécie de guru das mídias sociais e um visionário do mundo digital, ele defende radicalmente a ideia de que, no mundo conectado de hoje, todo mundo, com paixão e paciência pode ganhar dinheiro fazendo o que ama.

Ele é incrível e o discurso apaixonado dele faz todo sentido! Faz você querer pedir demissão imediatamente. Mas, eu te pergunto: Você sabe qual é a sua paixão?

Nem todos nós temos paixões preexistentes esperando para serem descobertas. Palestras como essa são uma ótima motivação quando você já tem a faca na caveira, um espírito empreendedor ou está sem coragem de tirar uma ideia da gaveta, por exemplo. Mas ao mesmo tempo que, para algumas pessoas é motivador ver alguém que ficou ainda mais milionário produzindo vídeos caseiros para falar sobre vinho no YouTube dizendo que você pode fazer o que quiser e ganhar dinheiro, para outras, só faz aumentar a ansiedade, a angústia e a sensação de que você é um bosta por estar trabalhando das 9h as 18h (19h, 20h…) enquanto outras pessoas estão ganhando milhões trabalhando em casa e de pijama.

Carreiras apaixonadas são raras e o que me preocupa atualmente é que talento e competência também estão ficando raros em um mundo onde as pessoas são promovidas a gerente depois de dois anos trabalhando como trainee nas grandes corporações. O mesmo mundo onde estagiários que nunca trabalharam antes, sentem-se frustrados porque seu trabalho é muito operacional e eles querem atividades mais estratégicas. A Geração Y não tem paciência para esperar o tempo certo das coisas ou simplesmente, não entende a importância de se fazer um monte de trabalho chato por alguns anos antes de ser promovido.

Descobrir uma paixão leva tempo

Mesmo que você seja apaixonado por algo e tenha certeza de esse é o seu propósito, você só vai saber de verdade quando estiver trabalhando há algum tempo. Não é porque você vai fazer algo que você ama que os problemas vão desaparecer. Honestamente, eles podem aumentar uma vez que quando você tem um negócio ou trabalha por conta própria, você precisa lidar com várias outras coisas que provavelmente não tem nada a ver com a sua paixão.

Só o tempo, o domínio sobre o trabalho e o sentimento de que você é muito foda naquilo que faz vão te mostrar se aquilo que você considerava a sua paixão é realmente o seu propósito, a sua vocação.

Paixão pode ser um efeito colateral da maestria

“Talento é 1% inspiração e 99% transpiração”
– Thomas Edison

Junto com o “siga a sua paixão” sempre ouvimos que quando você faz o que ama o dinheiro vem. Não deixa de ser verdade. Mas, talvez exista um outro jeito de pensar sobre isso. Eu acredito que o dinheiro vem para todos aqueles que realizam seu trabalho muito bem e concordo que muita gente que ama o que faz acaba se dedicando mais do que a média e se destacando naquilo que escolheu.

Maestria se adquire com paciência, empenho, dedicação e muito suor. Qualquer pessoa que realize seu trabalho dessa forma tem grandes chances de acabar sendo muito bom no que faz e quem sabe, se apaixonando. Quem trabalha bem conquista respeito e quando as pessoas te respeitam elas te dão autonomia. Quem se dedica mais do que a média tende a ser mais competente, fazer a diferença e por isso, todos adoram trabalhar com gente assim. Lembram das três necessidades básicas? Pois é!

Agora você pode estar se perguntando como uma pessoa que pediu demissão do emprego para viajar o mundo e seguir sua paixão pode estar falando tudo isso?

Eu trabalhei treze anos no mercado publicitário. Um mercado conhecido pela alta rotatividade, já que para crescer você teoricamente precisa ficar pulando de uma agência para outra. Minha história foi completamente diferente. Eu trabalhei oito anos na mesma agência, começando pelo menor cargo do meu departamento até ser promovida a diretora. E foi por ter trabalhado em todas as funções por um tempo considerável que eu me considero uma boa profissional na minha área. Isso também me trouxe maturidade e calma para decidir dar o próximo passo e aprender algo novo.

Por isso, não pense que eu estou dizendo que você não deve seguir a sua paixão. Se você sabe o que quer, arrisque, vá em frente!

A questão é que quanto mais eu leio sobre esse assunto, mais eu percebo que esse conselho só tem feito as pessoas acreditarem cada vez mais que um dia elas vão magicamente se apaixonar por alguma coisa que elas estavam destinadas a fazer e serão felizes para sempre, e trabalho, por mais realizador que seja, nunca vai ser um conto de fadas.

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